segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Tarde Fria em Nova York

Tarde fria em Nova York. O casal sai do carro, o elegante manobrista trata de levá-lo ao estacionamento. Entram no vestíbulo , uma moça também uniformizada toma conta dos agasalhos. Ana quase tem um surto de deslumbramento, consegue conter-se com muito esforço: o lindo salão do restaurante lembra o dos filmes musicais da Metro, talvez o Delmonico’s da década de vinte. Um conjunto toca Cole Porter com a discrição conveniente. Sentam-se junto a imensa janela, enfeitada por camadas de cortinas em tom chocolate bem clarinho.. Pedem coquetéis e assim que o maître se afasta, sim, olham-se de frente, depois de alguns segundos sorriem. Richard sobriamente trajado com um terno cor de cinza, gravata bordô, impecável, ela com um vestido comprado às pressas, naquele mesmo dia, mas aceitável para a ocasião; os cabelos puxados para trás e presos num coque, maquiagem suave. Pequenina e graciosa, Ana representa e bem o Uruguai, sua terra natal, descendente de italianos é uma sul-americana de carnes rijas e pele bronzeada em Punta del Leste, dentes perfeitos que exibe em generosos sorrisos. Richard, tipo bonitão de Hollywood, seus filmes fazem sucesso e ele muito mais com as mulheres do planeta, Ana era uma delas: fascínio por ele, um acontecimento mágico estarem juntos naquele momento. Foram apresentados na noite anterior , vernissage de uma prima que mora nos Estados Unidos há muitos anos; como artista plástica Graziela tinha conquistado um belo filão nas elites novaiorquinas, cada vez que lança seus quadros e esculturas de certa forma organiza festas divertidas e com convidados dos diversos matizes do colorido humano.
Têm dificuldade de comunicação, Richard não fala espanhol e Ana muito menos o inglês. Mas, quando pinta o clima da aproximação, da simpatia, esse problema é facilmente contornado, há a linguagem universal dos sinais, o olhar de um e de outro , a gesticulação e ainda a expressão facial. Portanto, foi assim que o casal combinou o almoço, os dois buscando o entendimento, mas estava muito claro que o encontro não se limitaria ao almoço, dariam uma esticada depois; Richard, otimista, já tinha reservado uma suíte no hotel que abrigava o restaurante.
Depois dos drinques, mais soltos, Ana sentia-se leve, que o almoço não durasse muito; Richard, esbanjando charme, sabia que estava administrando a situação mas não tinha outro jeito, precisava falar, dizer alguma coisa, e, claro, teria de ser em inglês.
-- Iú nou mi, mai neim is Richard bat iu mei colmi Dick, ov corsssss
Seus olhos piscaram com exagero, fazia parte, Ana reparou que o nariz dele não era tão grande assim, como parecia nos filmes.
Ana, sorrindo – Si Dick, no me passô por la cabeza jamarte mister Gere – esticou a mão direita por cima da mesa, Richard a enlaçou com seus enormes dedos, apertou; o sistema hormonal de ambos explodiu, olhos nos olhos, fixos e quase dramáticos, por pouco não deixaram o almoço para depois. Mas, controlam-se, os garçons chegavam com os pedidos.
-- Ana es mi nombre, asi me conocem en família , en toda parte. Solamente Ana, basta!!! -- e o “solamente basta” saiu decisivo e cantado, como falam uruguaios e argentinos.
Ela sabia que se tratava de uma aventura, mas certamente episódio raro, único, muita gente duvidará, certamente.. Pouco se importa, viver o momento é o que vale, quantas mulheres gostariam de estar na situação dela? Sabia também que Richard estava a fim de curtir uma novidade, mulher que recém-conhecia, para ele um tipo quase exótico do extremo sul do continente americano. E ambos continuavam tentando a comunicação verbal, já que os braços e as mãos estavam ocupados com o almoço.
-- Adonde vives? Aqui o en Califórnia? Califórnia – acentuou, buscando um inglês compreensível, dispensável para essa palavra.
-- Oooohhh ! – balbucia Richard, abafa um arrotinho – Oooohhh! Ai liv in everi parts ov de cântrrri, ai uorc rardli, uon dei rear, anoderrrr in Calcutá, it depends ov de contracts, its clear for iu? Uere you live?
-- Si, comprendo, uorc, trabajo, si, mutchas viahens, siempre. Jo vivo en Montevidéo, trabaho, uorc, traductora francês-espanhol, soi traductora --, arrematou Ana. – Vivo em Montevidéo pero me encanta Punta del Este en el verano, samar, samar, Ok? Iu anderstand?
E aos trancos trocam palavras, cada um no seu idioma, reciprocamente desconhecidas, mas o sentido das mensagens é razoavelmente captado. Afinal, não estavam ali num esforço panamericano para o entendimento, “por supuesto”.
E o almoço termina sem sobremesa, Richard pede conhaque para os dois, a bebida sela a etapa , dali para diante outros prazeres tomariam conta do simpático casal.
Dirigem-se para os elevadores quando Richard percebe a chegada de uma velha conhecida; pede licença para Ana, no vestíbulo do restaurante cumprimenta Júlia Roberts. Ana observa atentamente, claro, preocupada, e não deu outra: Richard volta, pede muitos “sorris”, chama o elegante manobrista que estava a pouca distância (a presença de Júlia Roberts em qualquer lugar mexe com muita gente, um frisson danado), e ordena -- Please, call a cab for de lady – apontando para Ana. Mais “sorris”, a situação fica insuportável para ela, simplesmente rejeitada como uma coisa qualquer. Como de bom sangue latino, antes que Richard e Júlia desaparecessem para um canto qualquer do restaurante, diz em tom audível por todos os presentes:
-- Maricón, me cago en la leche de tu madre !!!!!! –. Alvoroço, zum-zum-zum e o elegante manobrista já a cutucava nas costas –“Mileide, de texi is ueiting ; teique dis , Mr Gere send’s for iú “ --. Era uma nota de 50 dólares.

Um comentário:

Unknown disse...

ôla Felipe mui hermoso tu cuentito...erpero otro com mucha sacanarrem. besos. Bera