sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Qualidade interpessoal: benefício da crise

Este artigo foi publicado num ano turbulento -- Diário de Petrópolis, dia 23 de setembro de 1992 --como pano de fundo para um curso que pretendia lançar na Coordenação de Educação Continuada (braço do Conjunto Universitário Augusto Motta, do Rio de Janeiro). Foi inspirado num programa de "qualidade total" que estava sendo negociado com empresas da região serrana, na realidade um conjunto de iniciativas abordando os aspectos sociais e comportamentais do ambiente organizacional.

Qualidade interpessoal: benefício da crise

O conceito de qualidade empresarial há muito ultrapassou as fronteiras do exame da matéria prima, do acompanhamento da produção, da renovação de métodos, sistemas e do maquinário, da verificação do produto acabado: modernamente esse conceito abrange um conjunto de exigências relacionadas ao ambiente físico de traba lho, o clima organizacional, o nível das relações entre vendedores e clientes, chefes e subordinados mais os companheiros de trabalho, enfim, todas as ações que compõem e envolvem a malha comportamental de qualquer organização formal, de pequeno ou grande porte.

O nível de relacionamento entre as pessoas, portanto, faz parte do critério de êxito das empresas. Isso pode ser detectado quando observamos as preferências do público por determinados estabelecimentos comerciais e prestadores de serviços. identificando os chefes pela civilidade e simpatia na condução dos seus liderados, na imagem de certas organizações junto ao mercado de trabalho, para citar alguns exemplos.

É evidente, não podemos imaginar as empresas como paraísos celestiais e, como complicador, entendemos que somos todos produto de culturas e influências as mais diversas, vivemos num país gigantesco que tem como denomina dor comum o regime político, o poder centralizado em centros de autoridade, o mesmo idioma e a mesma moeda. Além dessa miscelânea estamos todos -- a grande maioria dos brasileiros --estarrecidos e perplexos, com os nervos à flor da pele, pressionados por circunstâncias e fatos impiedosos de ordem política, social, econômica, financeira, policial, social e, sobretudo, de ausência ética, que condicionam muito mais a agressividade e o deboche que condutas primadas por elegância britânica.

No entanto, as crises passam e nós permanecemos. É necessário tirar partido dessa crise nacional. Apostando no melhor, empresários, trabalhadores organizados, políticos, professores, jornalistas, enfim, todos os que direta ou indiretamente são agentes naturais de mudanças, devem se mobilizar, fazer valer este momento histórico e praticar uma revolução no sentido da melhor qualidade de vida, tendo como instrumento a forma de tratamento en tre as pessoas, para começar.

Nas empresas as ações podem ser conduzidas pelos seus dirigentes, com ou sem a participação de peritos em ciências sociais; é necessário somente o bom senso e a empatia com o próximo, a convicção de que o cafajestismo e a grosseria são práticas perfeitamente dispensáveis, até mesmo no botequim da esquina.

Não é fácil, mas não é impossível. Os processos visando a reformulação das condutas são viáveis quando partem da definição de princípios e são executados de forma disciplinada. Vale dizer que o exemplo, de cima para baixo, garante parte dos bons resultados.

Não podemos evitar, nas ruas, a breguesse, as gesticulações obscenas, o linguajar chulo, verdadeiras agressões aos bons costumes; no entanto, dentro das organizações é possívels não só ditarmos as normas de conduta como parte da cultura organizacional, com o igualmente influenciarmos a população interna para que em outros ambientes e situações os indivíduos conservem a qualidade das suas relações interpessoais, como o tratamento civilizado em sinal de respeito ao outro e à sociedade.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

frases

- "Eu gostaria de ficar sozinha: ao que retruca o visitante: Eu gostaria de ficar sozinho; por que não ficamos sozinhos juntos?" (Final de um poema de Marianne Moore, está no livro Flores raras e banalíssimas, a biografia de Lota de Macedo Soares).
- "Com ou sem religião, as pessoas bem-intencionadas farão o bem e as mal-intencionadas farão o mal; mas, para que as pessoas bem-intencionadas façam o mal, é preciso religião". Steven Weinberg (prêmio Nobel de física)
- "Cães são mais sábios do que os homens. Eles não desperdiçam seus dias acumulando propriedades, nem perdem o sono se preocupando em como manter os objetos que possuem, ou obter coisas que não tem. Eles não tem nada de valor para deixar em testamento, somente amor e lealdade". (anônimo)
- O bem vem do bem e o mal, de onde vem ?
- se Adão e Eva são criaturas de Deus, porque nas imagens sacras eles aparecem com seus respectivos umbigos? (anônimo)
- o testemunho é a meretriz das provas (anônimo)
- os mais nobres sentimentos têm a culpa como matriz
- o passado é uma roupa que não me serve mais (Belchior)
- advertência aos frequentadores de consultórios de psicanálise: se persistirem os sintomas recorram a médicos (endocrinologistas, neurólogos, psiquiatras, clínicos gerais.........)
- a racionalização pode se tornar o mais torpe dos recursos, na defesa ou na agressão
- só o conhecimento e a evoluçã o da ciência promove o saber, o resto é especulação
- ser normal deve ser uma merda
- a paixão é dimensão patológica da afetividade
- a psicanálise, infelizmente, não teve o seu Pavlov
- os fundamentos da Igreja Católica e do cristianismo são tão autênticos como a existência de Papai Noel
- o Vaticano é a Disneylândia dos católicos
- o bem é limitado, o mal é infinito
- só os amores impossíveis são eternos
- a vida solitária é, sob o ponto de vista do relacionamento humano, uma formidável punheta
- o poder mal exercido é característica dos pervertidos
- a esperança é a confissão poética da falta de expectativas
- é fácil enganar as pessoas: basta mentir com sinceridade
- a fé e a paixão são irmãs siamesas: têm em comum o colapso da razão
- o marketing é eficaz velhacaria, que rapidamente transforma o cidadão comum em otário
- não existe país subdesenvolvido mas país mal governado (Peter Drucker)
- as igrejas são os botequins dos vícios da espiritualidade
- a fé é a prova definitiva de que a anencefalia pode ser voluntária
- quando chegamos aos sessenta de idade consideramos a velhice uma bênção e a senilidade uma merda; aos sessenta e cinco que uma e outra são horrores; aos setenta concluímos que a velhice é uma merda e a senilidade uma bênção
- que el amor menos se supere solo cambie de lugar (Mercedes Sosa)
- as reuniões são absolutamente indispensáveis quando não se quer decidir coisa alguma
- "qui bene diagnoscit, bene curat"(Pedro Nava)
- quem fala demais, fala merda (dedicada ao presidente Lula)
- velhos recauchutados, mais que as mulheres , estão a um passo do ridículo e a um palmo do grotesco
- não podemos confiar em políticos, telefones celulares e bunda de seminaristas
- a matemática é a estética do raciocínio (Wesley Duke Lee)
- as surpresas não estão no futuro, vêm do passado (anônimo)
- ninguém sabe do futuro (Franklin Martins)
- a pior surpresa é aquela que chega quando a gente menos espera (Pres. Costa e Silva)

sábado, 6 de setembro de 2008

-- Collor e seus pungas --

Este artigo foi publicado no Diário de Petrópolis do dia 21 de abril de 1992, oito meses e alguns dias antes da deposição do presidente Fernando Collor de Melo. Nesse momento estouravam escândalos em torno do Palácio do Planalto, acompanhados de medidas paliativas do presidente de plantão, entre elas a reforma do ministério. Collor e seus pungas foi escolhido para figurar neste BLOG pela sua pertinência comos sentimentos de estupefação e revolta que progressivamente cristalizavam-se na sociedade; de certa forma fotografou um momento péssimo para o país, até o alívio que foi a imagem do presidente logo após sua renúncia, saindo pela porta dos fundos de Brasília.
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Não é necessário o título mestre em administração para afirmar e garantir que a responsabilidade corre paralela à autoridade, nem é necessário entender profundamente de política para reconhecer que a autoridade é representada pelo poder: em seu nome as pessoas dizem, fazem e acontece.
Estamos anda lembrados, suponho eu, do que aconteceu e vem acontecendo há dois anos, desde o momento da posse do atual presidente da República. Houve o discurso arrogante, as ações autoritárias e aconteceram chorrilhões de desmandos e arbitrariedades. Foram traçados e executados os rumos da economia, cujas consequências até hoje sangram o nosso bolso e nos tiram a oportunidade de trabalhar, pois o Brasil é o único país em que a inflação baixa e os preços sobem, e a recessão é espaço de manobras para agradar os credo res externos. Vale lembrar o famigerado e injusto bloqueio do nosso dinheiro, com o caráter de indifarçado confisco, desde os depósitos bancários até as populares cadernetas de poupança, e só safaram dessas os bem informados e os cúmplices do poder; e isso, notem bem, pouco depois da declaração do então candidato Fernando Collor, onde afirmara que o confisco era plano de Lula e das esquerdas. (1)
Foi o presidente da República quem confiou a gestão econômica deste país a "uma jovem que se revelou inepta" (2), além dos escândalo promovido pelo seu envolvimentos amorosos e lambanças sexuais, um conjunto de desastrosos produtos de uma mesma mente apaixonada que ela mesma fez questão de escancarar.
O mesmo presidente nomeou ministros, assessores, secretários e assumiu publicamente total responsabilidade pelos atos desses seus subo rdinados, como se isso fosse necessário; seria exaustivo desfiar, neste momento e neste espaço, o que os órgãos de comunicação noticiam, no país e no exterior, sobre o mar de lama que invadiu o Palácio do Planalto, exatamente por conta do pessoal mais chegado e de maior confiança do presidente, inclusive sua própria mulher. Exaustivo e desnecessário pois todos nós tomamos conhecimento de todas essas bandalheiras, ironicamente, até pelos serviços oficiais de divulgação.
De repente, numa segunda-feira qualquer, quando a opinião pública já estava identificando o vilão maior dessa história, além dos atores e personagens desse triste espetáculo. surge teatralmente o "salvador da pátria", como grande vítima, e anuncia a renúncia do ministério, uma espécie de ducha asséptica para se livrar da sarna que o atormentava. Sabemos que o corpo foi para o vinagre mas permanece a cabeça da tênia, tendo como hospedeiros o que existe de pior e retrógrado: os líderes de partidos e carreiristas, herdeiros legpitimos da ditadura, como o presidente agora desmascarado.
Veio a ciranda dos cargos políticos, o loteamento por interesses, Brasília e o Palácio do Planalto são assaltados pelos que fazem "da vida pública um meio de existência e suprem com a esperteza criminosa a superioridade do pensar" (3), impera a lei do "toma lá, da cá" que no Brasil é parte essencial da política e desbragado clientelismo que, neste momento, lambuza figuras até então inatacáveis sob o aspecto moral.
Por uma questão de decência e um mínimo de senso auto-crítico, junto com os ministros podres deveria ir também o responsável pelas suas nomeações; teríamos, provavelmente, um governp de coalizão e mais uma tentativa de salvar o país do caos político e administrativo, saturado de décadas de grossas safadezas e absoluta falta de patriotismo.
(1) entrevista ao jornalista Ferreira Netto, TV Bandeirantes (2) entrevista de Celso de Souza e Silva ao JB, dia 5 de abril de 1992
(3) Euclides da Cunha, Contrastes e Confrontos

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

3 de agosto de 1944

Este foi o dia mais infeliz da minha vida!
Este foi o dia doloroso para nós todos em casa.
Este foi o dia que a "Mitse" morreu!
Para mim foi o dia que eu chorei mais na minha vida, que eu fiz uma covinha triste, dolorosa e pequenina com uma cruz de espinhos coberta de papel de seda. Tininho ajudou-me como melhor amigo meu, é só.

Bruda
3 de agosto de 1944

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Pelas asas da Panair

Manhã de feriado , meio da semana. Na praia do Leme um grupo de amigos aguardava a montagem da quadra de vôlei jogando linha-de-passe. E apareceu no calçadão a moça morena com as filhas lourinhas do coronel Da Silva, que morava no mesmo prédio da Lota de Macedo Soares e Elizabeth Bishop. Segurava as meninas, uma em cada mão e ainda por cima equilibrava a tralha: a barraca, toalhas, chapéus e uma enorme bolsa. Bem feita de corpo, chamou a atenção da rapaziada. Fernando antecipou-se aos amigos, dirigiu-se à morena e a auxiliou a descer; mais que isso, também fincou o pau da barraca. Sorrisos, agradecimentos, Núbia era o seu nome, dois dedos de prosa e ficou sabendo que era parente do coronel, prima talvez, mineira, chegou no Rio de Janeiro disposta a enfrentar a seleção de pessoal da Panair do Brasil, queria porque queria ser aeromoça. Fernando voltou para o grupo, a essa altura já estavam organizados 3 times, seria uma competição valendo refrigerantes.
Fernando tinha folga no dia seguinte, não deu outra: ficou de campana na praia esperando Núbia aparecer, e assim aconteceu. Desta vez, já apresentados, as coisas estavam em mar de almirante, combinaram encontro naquele mesmo dia, no final da tarde. De mãos dadas iam e vinham pelo calçadão da praia, da rua Antonio Vieira até o forte Duque de Caxias; assunto não faltou, a simpatia correu recíproca. E pintou também a atração física, casal bonito, começaram pelos agrados, beijinhos inocentes e dois dias depois estavam rolando numa cama estreita do quarto de empregada da casa do coronel. E o segredo de Núbia ficou a descoberto, não era parente de ninguém mas babá das meninas. Tudo bem com Fernando, prometeu silêncio, moita. E como quase sempre acontece nessas situações, condições, em pouco tempo Fernando tomou fastio pela morena , resolveu tirar o time de campo. À francesa, está claro.
No entanto, mal sabia ele que estavam sendo observados por um amigo do Leme, este sim confesso apaixonado pela morena Núbia. Alberto aproximou-se de Fernando, disse que o tinha visto com “ela”. Num dado momento, repentinamente, perguntou ao amigo: “Me diga uma coisa, você está levando a sério esse namoro ?” Fernando pediu mais um chope ao garçom, deu um tempo e falou abertamente: “Alberto, não posso mentir para você. Não quero nada de sério com essa moça, aliás, estou a fim de acabar com a relação”. Alberto, por sua vez, igualmente fortaleceu o sentido da amizade de ambos e se abriu: “Meu camarada, estou fissurado nessa mulher !!! Já que você não quer nada com ela, pelo menos me apresenta, daí em diante, deixa comigo”. No entanto, apesar da promessa de Fernando, iria mesmo fazer a apresentação, ele não acreditou que Núbia viesse a se interessar pelo amigo. Nada contra, era um rapaz inteligente, ótima pessoa, mas muito feio, tão feio que o apelido era rascunho. Mas, promessa é promessa, precisava mesmo é de um ardil, alguma coisa que despertasse nela alguma “atração” por Alberto. Combinou com o amigo, então, que ele seria apresentado como filho do Paulo Sampaio, oresidente da Panair do Brasil. Concordaram que seria o melhor, um dia ela vai descobrir a canalhice, paciência; o tempo se encarregará de transformar tudo isso numa brincadeira de mau gosto, no máximo, pode até dar certo, coisas da juventude. Quem não foi, quem não será?
Dois dias depois, tudo acertado, Fernando e Núbia passeavam pelo calçadão, eis que aparece Alberto; é apresentado, os três ficam a conversar por algum tempo e, com uma categoria de grande ator Fernando solta um Ahhhhhhhh !!!, cara de espanto, revela para Alberto: “Núbia é de Formiga, Minas, está aqui no Rio para realizar um sonho, o de ser aeromoça “. Alberto, não menos ator, pergunta, dirigindo-se para a moça: “ De que companhia ?” Ela responde de imediato: “Quero trabalhar na Panair”. Os rapazes fazem caras e bocas de surpresa e Fernando faz a revelação, numa cara-de-pau de invejar políticos: “Então a coisa está no bom caminho, Alberto, este meu amigo, é filho do presidente da Panair, quem sabe pode dar uma ajudinha”. Núbia não se contém, abraça Alberto meio de lado, é toda sorriso, que coisa do destino,”hein minha gente de Minas Gerais”, é o que lhe passa na cabeça, eufórica. “Deus é grande”, repete para si mesma várias vezes. Os três combinam uma conversa entre Alberto e ela, a idéia era dele mostrar o caminho das pedras. E, a partir desse novo relacionamento de Núbia, Fernando deu uma de sumiço, foi tiro e queda. Simplesmente Núbia também “desapareceu”, Alberto idem, aceitou convite para trabalhar em Ribeirão Preto, interior do estado de São Paulo, nem deu notícias para Fernando sobre o que tinha acontecido, restou a história para um dia ser contada, um negócio quase psicodélico.
Passam-se dois anos. Fernando chega em casa, tinha sido um dia duro na faculdade, estava cumprindo os últimos créditos que o habilitariam a formar-se em engenharia; cansado, tomou uma ducha e foi para o seu quarto. Minutos depois sua mãe bate na porta, quer falar-lhe, uma novidade. Fernando atende, e ela conta: “Hoje, logo depois no almoço, esteve uma moça lhe procurando. Disse que você voltaria pelas seis da tarde, ela, infelizmente tinha vôo hoje à noite para os Estados Unidos, não podia esperar”. Fernando, entre ressabiado e curioso, interrompe: “E aí, e aí ?!?” Calma”, diz a mãe. “Perguntou por você, pelo curso na PUC, lamentou não encontrá-lo, deixou de presente uma garrafa de Jack Daniel’s, é isso mesmo ? É o uísque que você gosta, não é mesmo? “.Fernando, a esta altura está sentado na cama, estupefato, atento. E sua mãe complementa: “Uma morena bonita, de olhos verdes, com o uniforme de aeromoça da Panair, de nome Núbia. É sua conhecida de onde, meu filho? “. “Da praia, da praia, mãe”., e pede para ficar sozinho. Precisava ficar sozinho.

O Opala azul-marinho, duas portas, modelo 1972

Ronaldo estava desconfiado e tinha lá seus motivos. Ameaça à vista. O novo vizinho, casa do lado, mais moço que ele, sempre bem vestido, desquitado, advogado de conhecido escritório de São Paulo e ainda por cima dono de um belo Opala azul-marinho, duas portas, modelo recém-lançado no mercado..
Marlene, como a maioria das mulheres, casadas ou não, estava ouriçada com a novidade, até que enfim a população da vila melhorou de nível, costumava comentar para as amigas. E, pelo fato de morar ao lado dele, tinha o privilégio de observar seus movimentos: a hora que saia para o trabalho, que voltava e, até, se chegava em casa acompanhado. Mania, obsessão. Fácil de concluir que Ronaldo no mínimo sentia-se desconfortável, com muita freqüência flagrava a mulher espionando o vizinho pela janela da sala, protegida pela penumbra e pelas cortinas. Uma merda !
No entanto, atribuía essa conduta de Marlene como característica feminina, a curiosidade, sobretudo, ........”isso passa”, imaginava.. Não raro ela se pendurava no telefone, eram as amigas, quase todas excitadas quando o assunto versava sobre as companhias noturnas do vizinho, aventuras do dândi paulistano. Um contagiante frenesi .
E Marlene, de repente, passou a cuidar do jardim, coincidentemente nos momentos que o vizinho tirava o carro da garage, quando saía para o trabalho. Dessa Ronaldo não sabia, pois tinha de chegar na loja, onde era o gerente, mais cedo que os empregados.
Claro, o impecável vizinho e Marlene cruzaram os olhares, primeiro foi um cordial “bom dia”, depois algumas frases pouco criativas sobre o tempo, o sol, as plantas. Enfim, qualquer bobagem valia. E assim surgiu o interesse recíproco para uma aproximação física, obviamente clandestina. Nem precisavam mais trocar palavras, bastava um olhar, um sinal, e assim Marlene iniciou sua carreira de adúltera e Ronaldo passou a ostentar um simbólico par de chifres.
E o tempo correu. Tudo parecia estar mais calmo, raramente o casal se referia ao vizinho.
Numa noite, o casal assistia TV, sugeriu Marlene: “ Por que não trocamos de carro ? Nossa Variant já está meio usada, não dá não ? Ronaldo, sonolento, respondeu que o carro tinha apenas dois anos de uso, ótimo carro, um novo agora poderia mexer com suas reservas financeiras, enfim, desarticulou a mulher. E, surpreendendo Marlene, perguntou de chofre, movido pela intuição: “Você está tendo algum caso com nosso vizinho ? Bomba.! A mulher gaguejou, tentou indignar-se, mas a pergunta a pegou como tiro na mosca. “Não, não tenho, mas bem poderia ter” e, elevando a voz, agressiva: “Seria a mulher mais sortuda aqui da vila, se interessa saber”. Ronaldo, com a tranqüilidade que deve ter-lhe custado elevação da pressão arterial, levantou-se, dirigiu-se à sala de visitas, ligou a eletrola , uma composição de Mahler, que adorava, serviu-se de uísqui e gelo, foi uma noite insone. A idéia da corneação o perseguia, duro de engolir, a possibilidade de ser verdade.
No dia seguinte saiu sem o café da manhã. Chegando no trabalho procurou na
lista telefônica os anúncios de detetives particulares, entrou em contato com um deles.
Um mês depois, pagando caro pelo serviço, o relatório do investigador não comprometia
Marlene em nada. Por outro lado, o casal parecia ter esquecido o péssimo diálogo “daquela noite”. As coisas simplesmente voltaram à normalidade. Mas, passados mais alguns dias eis que chega a confirmação de adultério, não só os dias, as horas e o período em que os amantes passaram nos motéis, mais as fotos, os flagrantes. Foi sim como se Ronaldo tivesse sido atropelado por uma locomotiva, pior que isso, seria o rompimento e de forma brutal, ridícula, de um casamento de dez anos. Erro de pessoa ? Difícil de acreditar, muito menos aceitar passivamente. Não tinha outro jeito, depois de longa conversa com a mulher, que durou toda uma noite, resolveram pela separação. Ronaldo iria para um hotel e, na cabeça dele, ela ficaria ainda mais livre para se divertir com o vizinho. Prometeram que não haveria escândalo, ele iniciaria o processo do desquite, alegariam o tão usado, desgastado pretexto, “incompatibilidade de gênios”.
No entanto, a separação não estava sendo tão fácil como ambos supunham. Ronaldo, acostumado com sua casa , o conforto, seus livros e discos, enfim, quem já passou por isso sabe do que se trata. Quem não passou, ainda, que faça uso de sua imaginação. Marlene, por seu lado, logo de início sentiu alívio. Livre, finalmente sem culpas, angústias.......... Mas para sua surpresa e indignação o vizinho amante a jogou para escanteio, assim que soube da separação. E fim de papo. Suas amigas tomaram conhecimento do que aconteceu, quase tudo, e Marlene passou a ser uma ameaça disposta a buscar suas satisfações, de toda ordem, o jeito foi marginalizá-la. Os maridos passaram a ser melhor vigiados..
Precisavam conversar sobre o andamento do processo. Algumas semanas se passaram, marcaram encontro numa determinada quarta-feira, jantariam juntos como pessoas civilizadas. Ronaldo foi apanhá-la com seu carro novo, tinha também comprado um terno no mais famoso alfaiate de São Paulo, o Zago, os sapatos eram do Petrika’s, enfim, um novo homem.. E assim aconteceu, depois do jantar esticaram para um motel, tiveram uma noite de namorados, arrebatadora. Lá pelas tantas da noite, assim que Marlene saiu do carro -- Ronaldo a acompanhou até a porta da casa -- disse para Ronaldo, olhando firme e docemente, olhos nos olhos: “Adorei nosso encontro, quem sabe entramos numa nova fase de relacionamento, seu carro novo é lindo ! É um Opala , duas portas, azul-marinho, não é mesmo ?” “Sim”, a resposta pronta, seca. Ronaldo elegantemente beijou suas mãos, seus lábios, despediram-se.
No dia seguinte, manchete na primeira página do jornal Ultima Hora: “advogado desaparecido no domingo foi encontrado morto boiando no Rio Tietê”.