Manhã de feriado , meio da semana. Na praia do Leme um grupo de amigos aguardava a montagem da quadra de vôlei jogando linha-de-passe. E apareceu no calçadão a moça morena com as filhas lourinhas do coronel Da Silva, que morava no mesmo prédio da Lota de Macedo Soares e Elizabeth Bishop. Segurava as meninas, uma em cada mão e ainda por cima equilibrava a tralha: a barraca, toalhas, chapéus e uma enorme bolsa. Bem feita de corpo, chamou a atenção da rapaziada. Fernando antecipou-se aos amigos, dirigiu-se à morena e a auxiliou a descer; mais que isso, também fincou o pau da barraca. Sorrisos, agradecimentos, Núbia era o seu nome, dois dedos de prosa e ficou sabendo que era parente do coronel, prima talvez, mineira, chegou no Rio de Janeiro disposta a enfrentar a seleção de pessoal da Panair do Brasil, queria porque queria ser aeromoça. Fernando voltou para o grupo, a essa altura já estavam organizados 3 times, seria uma competição valendo refrigerantes.
Fernando tinha folga no dia seguinte, não deu outra: ficou de campana na praia esperando Núbia aparecer, e assim aconteceu. Desta vez, já apresentados, as coisas estavam em mar de almirante, combinaram encontro naquele mesmo dia, no final da tarde. De mãos dadas iam e vinham pelo calçadão da praia, da rua Antonio Vieira até o forte Duque de Caxias; assunto não faltou, a simpatia correu recíproca. E pintou também a atração física, casal bonito, começaram pelos agrados, beijinhos inocentes e dois dias depois estavam rolando numa cama estreita do quarto de empregada da casa do coronel. E o segredo de Núbia ficou a descoberto, não era parente de ninguém mas babá das meninas. Tudo bem com Fernando, prometeu silêncio, moita. E como quase sempre acontece nessas situações, condições, em pouco tempo Fernando tomou fastio pela morena , resolveu tirar o time de campo. À francesa, está claro.
No entanto, mal sabia ele que estavam sendo observados por um amigo do Leme, este sim confesso apaixonado pela morena Núbia. Alberto aproximou-se de Fernando, disse que o tinha visto com “ela”. Num dado momento, repentinamente, perguntou ao amigo: “Me diga uma coisa, você está levando a sério esse namoro ?” Fernando pediu mais um chope ao garçom, deu um tempo e falou abertamente: “Alberto, não posso mentir para você. Não quero nada de sério com essa moça, aliás, estou a fim de acabar com a relação”. Alberto, por sua vez, igualmente fortaleceu o sentido da amizade de ambos e se abriu: “Meu camarada, estou fissurado nessa mulher !!! Já que você não quer nada com ela, pelo menos me apresenta, daí em diante, deixa comigo”. No entanto, apesar da promessa de Fernando, iria mesmo fazer a apresentação, ele não acreditou que Núbia viesse a se interessar pelo amigo. Nada contra, era um rapaz inteligente, ótima pessoa, mas muito feio, tão feio que o apelido era rascunho. Mas, promessa é promessa, precisava mesmo é de um ardil, alguma coisa que despertasse nela alguma “atração” por Alberto. Combinou com o amigo, então, que ele seria apresentado como filho do Paulo Sampaio, oresidente da Panair do Brasil. Concordaram que seria o melhor, um dia ela vai descobrir a canalhice, paciência; o tempo se encarregará de transformar tudo isso numa brincadeira de mau gosto, no máximo, pode até dar certo, coisas da juventude. Quem não foi, quem não será?
Dois dias depois, tudo acertado, Fernando e Núbia passeavam pelo calçadão, eis que aparece Alberto; é apresentado, os três ficam a conversar por algum tempo e, com uma categoria de grande ator Fernando solta um Ahhhhhhhh !!!, cara de espanto, revela para Alberto: “Núbia é de Formiga, Minas, está aqui no Rio para realizar um sonho, o de ser aeromoça “. Alberto, não menos ator, pergunta, dirigindo-se para a moça: “ De que companhia ?” Ela responde de imediato: “Quero trabalhar na Panair”. Os rapazes fazem caras e bocas de surpresa e Fernando faz a revelação, numa cara-de-pau de invejar políticos: “Então a coisa está no bom caminho, Alberto, este meu amigo, é filho do presidente da Panair, quem sabe pode dar uma ajudinha”. Núbia não se contém, abraça Alberto meio de lado, é toda sorriso, que coisa do destino,”hein minha gente de Minas Gerais”, é o que lhe passa na cabeça, eufórica. “Deus é grande”, repete para si mesma várias vezes. Os três combinam uma conversa entre Alberto e ela, a idéia era dele mostrar o caminho das pedras. E, a partir desse novo relacionamento de Núbia, Fernando deu uma de sumiço, foi tiro e queda. Simplesmente Núbia também “desapareceu”, Alberto idem, aceitou convite para trabalhar em Ribeirão Preto, interior do estado de São Paulo, nem deu notícias para Fernando sobre o que tinha acontecido, restou a história para um dia ser contada, um negócio quase psicodélico.
Passam-se dois anos. Fernando chega em casa, tinha sido um dia duro na faculdade, estava cumprindo os últimos créditos que o habilitariam a formar-se em engenharia; cansado, tomou uma ducha e foi para o seu quarto. Minutos depois sua mãe bate na porta, quer falar-lhe, uma novidade. Fernando atende, e ela conta: “Hoje, logo depois no almoço, esteve uma moça lhe procurando. Disse que você voltaria pelas seis da tarde, ela, infelizmente tinha vôo hoje à noite para os Estados Unidos, não podia esperar”. Fernando, entre ressabiado e curioso, interrompe: “E aí, e aí ?!?” Calma”, diz a mãe. “Perguntou por você, pelo curso na PUC, lamentou não encontrá-lo, deixou de presente uma garrafa de Jack Daniel’s, é isso mesmo ? É o uísque que você gosta, não é mesmo? “.Fernando, a esta altura está sentado na cama, estupefato, atento. E sua mãe complementa: “Uma morena bonita, de olhos verdes, com o uniforme de aeromoça da Panair, de nome Núbia. É sua conhecida de onde, meu filho? “. “Da praia, da praia, mãe”., e pede para ficar sozinho. Precisava ficar sozinho.
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
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