segunda-feira, 1 de setembro de 2008

O Opala azul-marinho, duas portas, modelo 1972

Ronaldo estava desconfiado e tinha lá seus motivos. Ameaça à vista. O novo vizinho, casa do lado, mais moço que ele, sempre bem vestido, desquitado, advogado de conhecido escritório de São Paulo e ainda por cima dono de um belo Opala azul-marinho, duas portas, modelo recém-lançado no mercado..
Marlene, como a maioria das mulheres, casadas ou não, estava ouriçada com a novidade, até que enfim a população da vila melhorou de nível, costumava comentar para as amigas. E, pelo fato de morar ao lado dele, tinha o privilégio de observar seus movimentos: a hora que saia para o trabalho, que voltava e, até, se chegava em casa acompanhado. Mania, obsessão. Fácil de concluir que Ronaldo no mínimo sentia-se desconfortável, com muita freqüência flagrava a mulher espionando o vizinho pela janela da sala, protegida pela penumbra e pelas cortinas. Uma merda !
No entanto, atribuía essa conduta de Marlene como característica feminina, a curiosidade, sobretudo, ........”isso passa”, imaginava.. Não raro ela se pendurava no telefone, eram as amigas, quase todas excitadas quando o assunto versava sobre as companhias noturnas do vizinho, aventuras do dândi paulistano. Um contagiante frenesi .
E Marlene, de repente, passou a cuidar do jardim, coincidentemente nos momentos que o vizinho tirava o carro da garage, quando saía para o trabalho. Dessa Ronaldo não sabia, pois tinha de chegar na loja, onde era o gerente, mais cedo que os empregados.
Claro, o impecável vizinho e Marlene cruzaram os olhares, primeiro foi um cordial “bom dia”, depois algumas frases pouco criativas sobre o tempo, o sol, as plantas. Enfim, qualquer bobagem valia. E assim surgiu o interesse recíproco para uma aproximação física, obviamente clandestina. Nem precisavam mais trocar palavras, bastava um olhar, um sinal, e assim Marlene iniciou sua carreira de adúltera e Ronaldo passou a ostentar um simbólico par de chifres.
E o tempo correu. Tudo parecia estar mais calmo, raramente o casal se referia ao vizinho.
Numa noite, o casal assistia TV, sugeriu Marlene: “ Por que não trocamos de carro ? Nossa Variant já está meio usada, não dá não ? Ronaldo, sonolento, respondeu que o carro tinha apenas dois anos de uso, ótimo carro, um novo agora poderia mexer com suas reservas financeiras, enfim, desarticulou a mulher. E, surpreendendo Marlene, perguntou de chofre, movido pela intuição: “Você está tendo algum caso com nosso vizinho ? Bomba.! A mulher gaguejou, tentou indignar-se, mas a pergunta a pegou como tiro na mosca. “Não, não tenho, mas bem poderia ter” e, elevando a voz, agressiva: “Seria a mulher mais sortuda aqui da vila, se interessa saber”. Ronaldo, com a tranqüilidade que deve ter-lhe custado elevação da pressão arterial, levantou-se, dirigiu-se à sala de visitas, ligou a eletrola , uma composição de Mahler, que adorava, serviu-se de uísqui e gelo, foi uma noite insone. A idéia da corneação o perseguia, duro de engolir, a possibilidade de ser verdade.
No dia seguinte saiu sem o café da manhã. Chegando no trabalho procurou na
lista telefônica os anúncios de detetives particulares, entrou em contato com um deles.
Um mês depois, pagando caro pelo serviço, o relatório do investigador não comprometia
Marlene em nada. Por outro lado, o casal parecia ter esquecido o péssimo diálogo “daquela noite”. As coisas simplesmente voltaram à normalidade. Mas, passados mais alguns dias eis que chega a confirmação de adultério, não só os dias, as horas e o período em que os amantes passaram nos motéis, mais as fotos, os flagrantes. Foi sim como se Ronaldo tivesse sido atropelado por uma locomotiva, pior que isso, seria o rompimento e de forma brutal, ridícula, de um casamento de dez anos. Erro de pessoa ? Difícil de acreditar, muito menos aceitar passivamente. Não tinha outro jeito, depois de longa conversa com a mulher, que durou toda uma noite, resolveram pela separação. Ronaldo iria para um hotel e, na cabeça dele, ela ficaria ainda mais livre para se divertir com o vizinho. Prometeram que não haveria escândalo, ele iniciaria o processo do desquite, alegariam o tão usado, desgastado pretexto, “incompatibilidade de gênios”.
No entanto, a separação não estava sendo tão fácil como ambos supunham. Ronaldo, acostumado com sua casa , o conforto, seus livros e discos, enfim, quem já passou por isso sabe do que se trata. Quem não passou, ainda, que faça uso de sua imaginação. Marlene, por seu lado, logo de início sentiu alívio. Livre, finalmente sem culpas, angústias.......... Mas para sua surpresa e indignação o vizinho amante a jogou para escanteio, assim que soube da separação. E fim de papo. Suas amigas tomaram conhecimento do que aconteceu, quase tudo, e Marlene passou a ser uma ameaça disposta a buscar suas satisfações, de toda ordem, o jeito foi marginalizá-la. Os maridos passaram a ser melhor vigiados..
Precisavam conversar sobre o andamento do processo. Algumas semanas se passaram, marcaram encontro numa determinada quarta-feira, jantariam juntos como pessoas civilizadas. Ronaldo foi apanhá-la com seu carro novo, tinha também comprado um terno no mais famoso alfaiate de São Paulo, o Zago, os sapatos eram do Petrika’s, enfim, um novo homem.. E assim aconteceu, depois do jantar esticaram para um motel, tiveram uma noite de namorados, arrebatadora. Lá pelas tantas da noite, assim que Marlene saiu do carro -- Ronaldo a acompanhou até a porta da casa -- disse para Ronaldo, olhando firme e docemente, olhos nos olhos: “Adorei nosso encontro, quem sabe entramos numa nova fase de relacionamento, seu carro novo é lindo ! É um Opala , duas portas, azul-marinho, não é mesmo ?” “Sim”, a resposta pronta, seca. Ronaldo elegantemente beijou suas mãos, seus lábios, despediram-se.
No dia seguinte, manchete na primeira página do jornal Ultima Hora: “advogado desaparecido no domingo foi encontrado morto boiando no Rio Tietê”.

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