sábado, 6 de setembro de 2008

-- Collor e seus pungas --

Este artigo foi publicado no Diário de Petrópolis do dia 21 de abril de 1992, oito meses e alguns dias antes da deposição do presidente Fernando Collor de Melo. Nesse momento estouravam escândalos em torno do Palácio do Planalto, acompanhados de medidas paliativas do presidente de plantão, entre elas a reforma do ministério. Collor e seus pungas foi escolhido para figurar neste BLOG pela sua pertinência comos sentimentos de estupefação e revolta que progressivamente cristalizavam-se na sociedade; de certa forma fotografou um momento péssimo para o país, até o alívio que foi a imagem do presidente logo após sua renúncia, saindo pela porta dos fundos de Brasília.
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Não é necessário o título mestre em administração para afirmar e garantir que a responsabilidade corre paralela à autoridade, nem é necessário entender profundamente de política para reconhecer que a autoridade é representada pelo poder: em seu nome as pessoas dizem, fazem e acontece.
Estamos anda lembrados, suponho eu, do que aconteceu e vem acontecendo há dois anos, desde o momento da posse do atual presidente da República. Houve o discurso arrogante, as ações autoritárias e aconteceram chorrilhões de desmandos e arbitrariedades. Foram traçados e executados os rumos da economia, cujas consequências até hoje sangram o nosso bolso e nos tiram a oportunidade de trabalhar, pois o Brasil é o único país em que a inflação baixa e os preços sobem, e a recessão é espaço de manobras para agradar os credo res externos. Vale lembrar o famigerado e injusto bloqueio do nosso dinheiro, com o caráter de indifarçado confisco, desde os depósitos bancários até as populares cadernetas de poupança, e só safaram dessas os bem informados e os cúmplices do poder; e isso, notem bem, pouco depois da declaração do então candidato Fernando Collor, onde afirmara que o confisco era plano de Lula e das esquerdas. (1)
Foi o presidente da República quem confiou a gestão econômica deste país a "uma jovem que se revelou inepta" (2), além dos escândalo promovido pelo seu envolvimentos amorosos e lambanças sexuais, um conjunto de desastrosos produtos de uma mesma mente apaixonada que ela mesma fez questão de escancarar.
O mesmo presidente nomeou ministros, assessores, secretários e assumiu publicamente total responsabilidade pelos atos desses seus subo rdinados, como se isso fosse necessário; seria exaustivo desfiar, neste momento e neste espaço, o que os órgãos de comunicação noticiam, no país e no exterior, sobre o mar de lama que invadiu o Palácio do Planalto, exatamente por conta do pessoal mais chegado e de maior confiança do presidente, inclusive sua própria mulher. Exaustivo e desnecessário pois todos nós tomamos conhecimento de todas essas bandalheiras, ironicamente, até pelos serviços oficiais de divulgação.
De repente, numa segunda-feira qualquer, quando a opinião pública já estava identificando o vilão maior dessa história, além dos atores e personagens desse triste espetáculo. surge teatralmente o "salvador da pátria", como grande vítima, e anuncia a renúncia do ministério, uma espécie de ducha asséptica para se livrar da sarna que o atormentava. Sabemos que o corpo foi para o vinagre mas permanece a cabeça da tênia, tendo como hospedeiros o que existe de pior e retrógrado: os líderes de partidos e carreiristas, herdeiros legpitimos da ditadura, como o presidente agora desmascarado.
Veio a ciranda dos cargos políticos, o loteamento por interesses, Brasília e o Palácio do Planalto são assaltados pelos que fazem "da vida pública um meio de existência e suprem com a esperteza criminosa a superioridade do pensar" (3), impera a lei do "toma lá, da cá" que no Brasil é parte essencial da política e desbragado clientelismo que, neste momento, lambuza figuras até então inatacáveis sob o aspecto moral.
Por uma questão de decência e um mínimo de senso auto-crítico, junto com os ministros podres deveria ir também o responsável pelas suas nomeações; teríamos, provavelmente, um governp de coalizão e mais uma tentativa de salvar o país do caos político e administrativo, saturado de décadas de grossas safadezas e absoluta falta de patriotismo.
(1) entrevista ao jornalista Ferreira Netto, TV Bandeirantes (2) entrevista de Celso de Souza e Silva ao JB, dia 5 de abril de 1992
(3) Euclides da Cunha, Contrastes e Confrontos

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